História de Cuiabá desaba junto com casarões abandonados e identidade se perde no tempo


Fonte : G1

Você sabia que o primeiro presidente do Brasil morou em Cuiabá? Marechal Deodoro da Fonseca não só morou, como se casou com Mariana Cecília de Souza Meireles e viveu, com a mulher, na Rua Cândido Mariano, no Largo da Boa Morte em 1888. Atualmente, a casa é de propriedade da Igreja Católica, que aluga o imóvel, conhecido como Casa dos Frades Franciscanos.

Ele alagoano e ela carioca, se apaixonaram e se casaram na Paróquia da Sé do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, após poucos meses de namoro. Esta é apenas uma das histórias, quase desconhecidas, que constroem a identidade cultural da capital de Mato Grosso. Os casarões do Centro Histórico de Cuiabá, em sua maioria, não têm as histórias difundidas. Dos 600 imóveis reconhecidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), 400 estão tombados como patrimônio histórico da capital. No entanto, grande parte está em ruínas, nenhum possui identificação sobre sua história nas fachadas e outros apresentam graves problemas estruturais. Outra parte desabou e ainda espera por revitalização.

Nas ruas, a população reconhece que a identidade cultural das construções está se perdendo no tempo. Mauricéia Lopes, 54 anos, é técnica de enfermagem e lamenta a falta de políticas públicas mais consistentes para preservação dos locais.

“Eu conheço parte da história e estou muito chateada com o Iphan. Cadê a verba federal que vem para arrumar isso aqui? Toda capital que tem um Centro Histórico é tudo arrumadinho, tudo certinho e aqui é essa bagunça, os casarões todos caindo, pessoas [em situação] de rua entrando. É muito triste. Cadê o turismo? O pessoal vem para conhecer e está tudo caindo”, disse Mauricéia.

A verba federal se trata do PAC Cidades Históricas, que em 2015 destinou à Prefeitura de Cuiabá pouco mais de R$ 10 milhões para 16 obras de revitalização.

De acordo com a superintendente do Iphan, Amélia Hirata, até o momento apenas sete foram concluídas: Casa Barão de Melgaço; Museu da Imagem e do Som; Praça da Mandioca; Praça Caetano Albuquerque; Escadaria do Beco Alto; Praça Alberto Novis e Praça Senhor dos Passos.

Abandono

Um dos casarões mais tradicionais de Cuiabá é a Casa de Bem-Bem, que desabou em 2018. O local é o maior exemplo de uma residência colonial em Cuiabá e ficou muito famoso pelas festas de São Benedito, que entre as décadas de 60 a 80 ocorriam no imóvel.


A família Figueiredo recebeu no seu quintal a festa e, com isso, a tradição não morreu. Inicialmente era conhecida como Casa do Nhô-Nhô de Manduca, que são os antepassados de dona Bem-Bem.

É uma das casas que fazem parte do PAC Cidades Históricas, que deveria resgatar suas características originais. Entre os diversos imóveis que correm risco de desabamento, está a casa nº 95 A na Rua Galdino Pimentel.

No local, a faixada superior ainda preserva as características coloniais. Na parte inferior, funciona um comércio de roupas. Uma das trabalhadoras, Anésia Aparecida, 58 anos, falou sobre o medo constante de desabamento.

“Tem muitos anos que trabalho aqui e sempre foi assim. Nunca teve reforma e agora está mais difícil porque o dono faleceu. Tenho medo, principalmente quando chove, porque essas paredes são de adobe, não tem ferro, nada e causa medo quando chove. Não conheço a história, quem construiu, nada. Sabemos apenas que era uma loja de calçados que pegou fogo”, disse.

Ausência de projetos para revitalização

Além dos imóveis tombados, há diversos que são de propriedade particular. Em sua maioria, estão em ruínas, e muitos foram invadidos por usuários de drogas. De acordo com a superintendente do Iphan, há uma confusão em relação ao que é o tombamento, quando ,na verdade, nada mais é que um ato administrativo que reconhece o valor e a importância de um bem para o coletivo.

“Mais de 90% dos casarões são compostos por imóveis de propriedade particular, e é de responsabilidade do proprietário zelar pelo imóvel. Agimos em casos mais emergenciais, quando entendemos que há risco de perda irreparável para o conjunto. A confusão é que as vezes se entende que a responsabilidade pelo imóvel é do ente que o tombou e, na realidade, não. A gente não tem visto nesses 10 anos a manutenção preventiva desses casarões. O que verificamos é a manutenção corretiva, que é quando o dano já existe”, comentou Amélia Hirata.

Sobre a Casa de Bem-Bem, ela disse que o imóvel é de propriedade particular, mas existe um comodato com o município de Cuiabá que o incluiu no PAC Cidades Históricas. No entanto, a data da obra segue incerta.

“A prefeitura contratou a empresa para restauração, mas houve um desabamento e a intervenção desses imóveis exige conhecimento técnico de empresas especializadas. Quando não há esse tipo de empresa, corremos o risco de causar maior dano”, completou.

A secretária municipal de Cultura, Carlina Jacob, reconheceu a necessidade de se implantar projetos para valorização do Centro Histórico.

“Precisamos fazer com que a população volte a frequentar o Centro, sentir essa energia e a alma da cuiabania que existe. Há um plano ocupacional, e queremos levar escolas e universidades [até os locais]. Há um estudo para transformar o Beco do Candeeiro em uma rua 24 horas, para dar vida àquele lugar”, disse.

De acordo com Carlina, a Prefeitura de Cuiabá trabalha para elaboração de propostas que possam revitalizar o Centro Histórico, mas também oferecer informação aos moradores da cidade sobre as histórias dos casarões. A ação deve atrair turistas.

“Existe o Turismo Patrimonial, quando as pessoas saem de suas casas para conhecer esses lugares históricos, mas porque Cuiabá não pode ter? A gente tem um parque histórico maravilhoso e as pessoas precisam descobrir essa beleza. Os próprios cuiabanos não conhecem Cuiabá. É com esse objetivo que estamos buscando essa energia. As pessoas passam pelos casarões e nem imaginam a beleza e história”, completou.

O arquiteto Robinson de Carvalho Araújo é coordenador de Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT). Para ele, é urgente a implantação de ações que divulguem a história dos casarões.

“Se você não conhece o valor do bem, não consegue cuidar aquilo. Precisamos levar à população o conhecimento dessas construções e quais suas origens. Cuiabá, até a década de 60, tinha aproximadamente 50 mil habitantes e vem dobrando a população a cada década, e isso é fluxo imigrante, que não tem essa raiz com a terra e isso fez com que os conhecimentos das tradições fossem ficando esquecidos”, disse ele.



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